Quarta-feira, Junho 10, 2009

Outra Estupidez Qualquer

Sempre olhando, sempre olhando... não descanse, digite, não digite, codifique, copia e cola. O corpo preso e mente tentando ser livre, as articulações rangem, doem e reclamam enquanto os olhares não perdoam um instante sequer; copia e cola. Você não é obrigado, mas obrigado o é a sempre copiar e colar. Olhares de novo, copia e cola. Finge, escreve uma tolice qualquer, copia ali, cola lá. Odeia em seu íntimo, mas o faz mesmo assim. O som das teclas delata, não mais cíclico e repetitivo, mas contínuo, interrompido apenas pela organização dos pensamentos. Logo os olhares se voltam novamente desconfiados e me preparo para escutar outra estupidez, copia e cola. Eu queria criar. Só um pouquinho. Copia e cola. CoPiA e coLa. COPIA E COLA. COPIA E COLA. COPIA E COLA. Pelo menos ainda posso ouvir música. copia e cola. copia e cola. copia e cola.

Segunda-feira, Março 23, 2009

Fast Forward

A realidade ainda brinca com meus sentidos. Durmo e o sono continua a me perseguir. O tempo passa. Eu corro, corro, corro e a realidade foge ao meu controle, a minha percepção. Tomo café. Uma xícara. Duas. O amargor toma conta e o sono prevalece. Nunca gostei de café, mas continuo tentando. Passa um dia, dois dias e quando acordo novamente é sexta feira 15:42. A semana foi-se e o fim de semana também. O que eu fiz? Aonde estive? O que aconteceu não sei.

Tento entender e tenho em mente duas hipóteses: Passei esse tempo todo tão cansado que nem me lembro de nada, como quando fico com sono e perco totalmente a noção do que acontece. A outra hipótese é de que o tempo passa realmente rápido quando estamos nos divertindo que eu nem vi. E, de fato, não tenho do que reclamar, meu trabalho novo é ótimo, as aulas da faculdade estão promissoras esse semestre, meu namoro vai bem e eu até consegui jogar um pouco de video-game na semana passada... mas a sensação ao final de cada dia é péssima.

Então o que? Algum sonambulismo bizarro que me faz lembra dos momentos em que estou acordado da mesma forma que dos sonhos que tenho quando durmo? Será isso o que me faz acordar diversas vezes ao longo da noite com calores diversos, dores nas costas e me sentindo atado às roupas como se fossem elas grilhões? Será um alcoolismo ou uma ressaca da realidade, um cansaço irremediável?

Tento não pensar no mal mais óbvio que sempre me leva aos mesmos becos sem saída com a esperança de que se eu o ignorar ele fará o mesmo por mim.

Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009

Reflexões Sobre a Natureza Envasada

Era uma tarde quente e úmida de final de ano no “agreste universitário”. Não bastasse o calor abrasador, eu sentia uma bela de uma fome numa época em que não é aconselhável sentir fome depois que o bandejão já fechou.

Saio para tentar um lanche e procuro incessantemente algum lugar que esteja aberto. Corro para lá, corro para cá e com um pouco de sorte encontro uma cantina fechando antes de considerar a caça uma opção mais viável. Dou uma olhada (bem) rápida entre as diversas (leia-se: duas) opções do menu e agradeço por não existirem cantinas estatais. Escolho o croissant de quatro queijos com o medo e a certeza de descobrir que os quatro queijos inclusos são o queijo ralado, o queijo fatiado, o queijo em pedaços e o queijo em filetes. E para completar peço um suco de laranja de lata.

A senhora dona da cantina me atende com tamanha boa vontade que me sinto culpado por sentir fome. Alguma coisa me diz que ela não sabe que não é funcionária pública, provavelmente a mesma coisa que me diz que ela não vai acreditar se eu a disser. Pego a comida, procuro por uma mesa na sombra, sento, como e num ímpeto de curiosidade leio (sic):

“Ingredientes: Água, suco concentrado de laranja, açúcar, antioxidante ácido ascórbico e aroma natural de laranja. Pasteurizado. Não contém glúten.”

A grande laranja desenhada no rótulo me observa desconfiada. Releio tudo assustado e confuso. O aroma natural de laranja não deveria ser parte integral do suco concentrado de laranja? Se este suco tem aroma natural de laranja quer dizer que outros sucos naturais de laranja podem ter aroma artificial?

Desconfiança é assim, depois que nós encontramos um motivo qualquer para duvidar de algo tudo o mais se torna inquietante. Até quando leio que: “Esta lata contém em média o suco de 5 laranjas” fico me perguntando porque não encontrei a palavra “naturais” após “laranjas”. Será que a única coisa natural do meu suco é o aroma?

Acho que esse é mais um daqueles mistérios como a água mineral natural gaseificada, que em 90% dos casos esconde em algum canto da embalagem uma menção sorrateira em uma fonte pequena e borrada com os dizeres: “gaseificada artificialmente”. Foi-se o tempo em que quando alguém somava uma coisa artificial a uma coisa natural esta pessoa tinha a decência de chamar o subproduto de artificial também. Devo então supor que o meu computador também é natural, já que é feito de silício, ouro, alumínio e outros materiais encontrados na natureza?

Terça-feira, Janeiro 13, 2009

Reflexões sobre o Tempo

O tempo em sua fúria passa imperiosamente;
Quando olhamos já não vemos o que nos é presente;

Tentamos segurar mesmo quando não podemos;
Deixamos nos levar quando já não mais queremos;

Ao ver o tempo a passar e nos deixar o esquecimento,
do que somos, do que rimos, do que choramos, do que vimos...

Escrevemos para abraçar aquilo o que nós somos
e pranteamos ao perceber o quanto nossos braços são curtos.

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

Se falo, calo
Se calo, escrevo

Se escrevo, apago
Se apago, esqueço

Se esqueço, choro
Se choro, desejo

Se desejo, espero
Se espero, entristeço

Se entristeço, paro
E se paro, enlouqueço.


***
Para Luana com carinho.
Válvula Literária

Terça-feira, Setembro 23, 2008

Cadafalso

A cova aguarda.

Com rosnados e roncos ensurdecedores a rua trata os passantes rispidamente.

A cova aguarda.

Força um transe hipnótico em que ninguém vê ninguém, só ouve aos barulhos e respira o cheiro fétido da cidade, de suas velhas galerias, hidrocarbonetos e esgoto à vista de estabelecimentos pútridos.

A cova aguarda.

Em algum lugar do outro lado da cidade ela aguarda, sinistra, silenciosa, funesta. E eu aqui, em um lapso de consciência oriundo das mais misteriosas manifestações da vida, batatas e leveduras. Minhas batatas, minhas leveduras, outras vidas e a minha não-vida. Enquanto a minha vida... A cova aguarda pronta para me devorar a cada dia mais. Mas mal sabe ela que já me tem por inteiro! Que estou morto sabe lá desde quando e que se ainda existo é porque apenas ando e moribundo, mórbido, maltrapilho, habito a casca vazia de mim mesmo.

Ocasionalmente acordo e enxergo através de meus próprios olhos em um instante único de lucidez quando à noite a Lua envolve as minhas entranhas com carícias. Ou quando às vezes sinto um pálido raio de sol invernal o qual ao passar me retorna ao cadafalso, como agora que o lusco-fusco foi-se, o frio é implacável, as batatas jazem gélidas no prato e a consciência luta contra a imobilidade.

O copo rapidamente seca enquanto rabisco as últimas linhas entre goles. O corpo reluta.

A cova aguarda seu momento triunfal.

E eu espero pelo último frio do inverno.

Quarta-feira, Julho 16, 2008

Bons Tempos

Eu disse a ela que queria voltar a escrever, mas que não consigo. Ela me disse que é porque eu estou deprimido. Antigamente quando eu estava deprimido conseguia escrever e escrevia muito. Hoje não consigo escrever muito quando estou deprimido e nem quando eu não estou.

Ela me disse que eu precisava fazer aquilo que dizia para ela: “Você precisa criar o hábito”. E eu disse que antigamente eu tinha hábitos quando eu estava deprimido. Hoje não tenho hábitos quando estou deprimido e nem quando não estou.

O único hábito que eu não perdi foi o de reclamar que não consigo mais escrever, pareço uma daquelas velhas mal-comidas que olham tudo da janela para praguejar depois o dia inteiro. Só que velhas mal-comidas são mal-comidas e eu sou bem-comido quando estou deprimido e quando não estou também.

Mas se tem uma coisa que não mudou nem um pouco é que antigamente eu não sabia terminar os meus textos quando estava deprimido e hoje não sei terminar os meus textos quando estou deprimido e nem quando não estou.